Perdoar, esquecer, compreender

Por Antânia

Uma vizinha estava passando por problemas com o marido. Basicamente ele era violento e batia nela. Depois de alguns incidentes e um boletim de ocorrência, finalmente o marido saiu de casa.

Algumas semanas depois, a vizinha vai a casa de minha mãe (que em certa ocasião havia lhe socorrido) e pergunta o que fazer, pois o marido queria muito voltar pra casa. Já sentindo que a mulher queria, na verdade, aprovação para uma decisão tomada, minha mãe disse o que ela queria ouvir (e em questão de poucas horas, lá estava o marido voltando pra casa com mala e cuia).

Até onde sabemos, o marido melhorou muito (ou pelo menos ficou mais discreto).

E eu fico me perguntando: até que ponto perdoar e esquecer é uma alternativa possível?

Hannah Arendt – teórica política judia perseguida pelo nazismo – fala da diferença entre perdoar e compreender. Para ela, perdoar é fazer o impossível: é praticamente desfazer o que foi feito, mas sem eliminar a consciência de que aquilo de fato ocorreu. Já compreender é entender que tal atitude é válida, dadas as circunstâncias. Assim, ela mesma dizia perdoar o nazismo, mas nunca compreendê-lo, pois compreender tamanha atrocidade seria reconhecer o mundo onde o nazismo existe como aceitável.

Tanto compreender quanto perdoar são ferramentas de crescimento e evolução pessoal, espiritual, filosófica, transcendental (escolha aí o nome que mais lhe apetece), desde que sejam puxadas do nosso “cinto de utilidades” na hora certa.

Perdoar não é fácil. Ou melhor! Perdoar não é difícil! Difícil é chegar a esse estado de espírito que permite o perdão. Uma vez que se chegue lá, é muito natural e faz mais bem a quem perdoa do que a quem é perdoado. Alivia os pesos da alma, retira de nós uma bagagem que em nada nos seria útil. E perdoar não é esquecer, porque quando perdoamos, a lembrança continua conosco como aprendizado, mas não como mágoa.

Compreender é exercer a empatia no seu grau mais elevado e ir além: é estar disposto a sair da zona de conforto e mudar o “ponto de observação”. É calçar os sapatos do outro percebendo suas motivações e suas angústias. É ganhar uma nova perspectiva – algo que só nos enriquece, mas que demanda um esforço que quase ninguém está de fato disposto a fazer.

De qualquer forma, vejo tantas burraldas se esforçando para compreender e perdoar toda sorte de atitudes vindas do amado da vez… Mas, a mesma burralda, capaz de tamanha compaixão (ou burrice), não perde muito tempo tentando compreender uma amiga, uma pessoa da família ou um colega de trabalho que pisou na bola.

Bem, voltando a tal vizinha, não vou julgar a sua situação. Vou me contentar em dizer que ela assumiu um enorme risco e que não sei se teria coragem pra isso.

Mas o único risco que corremos ao fazer o esforço de TENTAR compreender um amigo é o de abandonarmos um monte de bobagens que julgávamos imprescindíveis.

PS: Prestando um serviço de utilidade pública, vale dizer que em 85% dos casos, só o fato de o agressor ser denunciado e chamado pela polícia a se explicar, já é o bastante para que não volte a agredir. Portanto, no tocante a violência doméstica, perdoar e compreender depende de cada caso. DENUNCIAR É IMPERATIVO A TODOS ELES.

PS2: Desculpem aí, o texto sério… É que quando o nariz de palhaço descola nem sempre dá pra colar imediatamente! ;-)


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11 agosto 2009 669 acessos 27 comentários

27 comentários »

  • Rachel disse:

    Muito tempo que não comento aqui. Mas o post de hoje foi perfeito. De fato, às vezes nos esforçamos tanto para perdoar e compreender nosso amado da vez e não fazemos isso com pessoas que realmente nos amam. Já passei por situações em que compreendi, mas não perdoei; perdoei, mas não compreendi; e perdoei e compreendi. Quando perdoamos, principalmente, nos sentimos mais leve. Porque, guardar rancor só acaba com nós mesmas. O outro pode até ficar chateado, mas vai seguir em frente, enquanto aquele que não consegue perdoar vai remoer a situação para o resto da vida. Enfim, a vida vai passar e continuaremos no mesmo lugar. Algo do tipo “minha vida sem mim”. No mais, concordo com você: qualquer violência doméstica, qualquer tipo de agressão deve ser denunciada. Pode até ser que em 85% dos casos o agressor, não volte mais a agredir após uma denúncia (o que não acho mesmo que ocorra), mas é muito importante que a pessoa agredida busque ajuda psicológica, pois existe não só a figura do agressor, mas também daquele que permitiu ser agredido.

    Desculpe o comentário ultra longo, mas acho válido quando é assim sério. Adoro seus post Antânia!!!

    Bjos meninas.

  • Idiotilde disse:

    Antinha, eu amo Hanna Arendt e só o fato de citá-la já valeu o texto.
    Vale como reflexão, não há burrice que possa permitir enxergarmos a violência como algo normal.

  • Karla disse:

    Cacildis!!!!!

  • Antônima! disse:

    Puxa, queria conseguir voltar a perdoar…

    Infelizmente, depois de anos perdoando coisas gravíssimas de ex (humilhações diversas e agressões diversas) e relevando faltas absurdas de amigos que sempre se aproveitaram da minha burrice (afinal, a gente tb é apaixonado por amigos, família, etc… a burrice acaba se estendendo a mtas àreas da vida)…

    Depois de sempre perdoar (burra!) as mesmas pisadas e patadas (burra!) não só das mesmas pessoas (burra!), mas de pessoas novas tb (burraaaaaaaa!!!), acabei fechando meu coração para isso.

    Se sou feliz? Não… Sentir rancor é algo mto destrutivo, parece que corrói a alma.
    Eu endureci… Muito!

    Quem sabe uma hora eu descubro uma mágica para me livrar disso… Como é difícilllllllllllll perdoar!!!

    =(

    Grazy – Antônima

  • vinícius disse:

    EXERCITANDO O CONCEITO DO POST.

    “Desculpem aí, o texto sério…”
    antânia, te compreendo e te perdoo, tudo ao mesmo tempo. que nota hanna me dá?

  • Gimenta disse:

    Violência doméstica é inaceitável e ponto final. Precisa ser denunciada sim, seja para inibir a reincidência seja para desestimular condutas semelhantes. Agora, se a agredida vai perdoar, compreender, esquecer, relevar, etc… isso é livre-arbítrio dela. Cada um com suas escolhas (e responsabilidades pelas consequências).

    Quanto a mim, estou longe de atingir esse estado iluminado-transcendental-búdico onde reside o perdão incondicional a um homem violento que tenha agredido meu corpo e minha alma.

  • amiguinhazinha disse:

    Poxa, não sei se a minha experiencia no juizado especial criminal me ajuda em alguma coisa, mas de f\ato 99% dos agressores voltavam a agredir. Explico: neguin denuncia, chama o casal, conversa com os ditucujos, como o amor é lindo, voltam pra casa e é só questão de tempo pra um novo cacete e uma nova denúncia…

    Deve haver exceções…eu só não conheci nenhuma ainda…

  • Alice disse:

    Violencia doméstica não se perdoa. É possivel compreender se a mulher é muito desaforada, mas perdoar é outra história.

    A violência é o recurso do ignorante por que ele é intelectualmente incapaz de argumentar. Você quer estar com alguem assim?

    Largo um cara por muito menos, imagine se ele me agredisse. Eu não ia descansar enquanto ele não fosse humilhado.

  • Valentina disse:

    Muito dificil essa situação. Não podemos julgar as escolhas das pessoas, os motivos que as levam a agir. Se ela decidiu perdoar, aceitá-lo de volta, assumindo o risco de novas agressões é porque de alguma forma a presença daquele homem na vida dela é importante. Existe alguma coisa ali que é boa pra ela. Não digo que ela goste de apanhar, não é isso. Mas que ela se sente melhor com ele do que sem a sua presença, isso é inegável.

    O perdão é um desafio pra todos nós. Todos temos que perdoar e ser perdoados eventualmente.
    Quando se perdoa, há sim um alívio na alma. Mas, o fato de perdoar não significa que esquecemos o que o outro nos fez. A lembrança fica ali. A diferença é que o acontecido passa a não doer mais, alivia de certa forma. Perdoar verdadeiramente é algo muito difícil.

    Eu, particularmente, não acredito ser capaz de perdoar esse tipo de violência. Mas isso sou eu.

    Beijo

  • Miss Sebo disse:

    Acho que as mulheres que perdoam violência doméstica o fazem porque no fundo sentem pena do homem que as maltratou. Pena por saber que ele é uma pessoa fraca, sem auto-estima, e que tenta se mostrar superior pela violência. Tenho um caso desses na família e tenho certeza de que a separação não ocorreu por esse motivo.

    O problema é que não podemos nos iludir, achando que temos capacidade de ajudar uma pessoa que não quer nossa ajuda. O caso que conheço já acontece há 30 anos e nada mudou. Quando a pessoa quer mudar, ela procura tratamento. Dizer simplesmente que vai mudar não adianta. E querer forçar alguém a isso adianta menos ainda.

    Acho que o perdão é válido em qualquer situação. Nem sempre temos a elevação espiritual necessária para concedê-lo. Mas perdoar não significa deixar que a pessoa repita a atitude que nos magoou.

  • Vivi disse:

    Concordo com a Miss Sebo, perdoar não significa esquecer e muito menos deixar que a pessoa repita a atitude. Não vou ficar julgando a posição da vizinha, cada um sabe de si, espero que ela saiba os riscos que assumiu e que tudo dê certo. Pelo menos ela denunciou a agressão, que isso sirva de alerta ao sujeito que não serão toleradas novas agressões (e que não sejam mesmo) e ele tome jeito.
    Pelo modo como fui criada e pelas coisas em que acredito, dificilmente toleraria uma agressão. Sem entrar no mérito do que é certo, justo ou socialmente indicado, sei que isso mudaria totalmente meu sentimento em relação ao agressor. Por muito menos (muito mesmo) algumas histórias deixaram de ser importantes para mim, perderam o sentido e a vontade de estar junto foi embora para sempre. Isso porque acredito que respeito mútuo é a base de qualquer relação. Se acho que o respeito deixou de existit, não quero mais e agredir é o último grau de desrespeito.

  • miguens disse:

    Posts sempre perfeitos,essa Antânia é demais. A violência doméstica tem uma faceta que é demasiadas vêzes esquecida: A violência psicologica. Nada mais próximo do crime perfeito. Não deixa marca no rosto ou no corpo da vítima. Pode ser usada todos os dias, a toda a hora, por telefone, mensagem de celular ou mail e, supremo requinte, até pode ser negada com um arzinho de inocência ultrajada:
    –Mas benzinho, era apenas uma crítica construtiva!
    Como se isso não fosse o suficiente,esse tipo de agressor sempre encontra um jeito de se fazer de vítima quando o agredido se revolta.
    É mais comum encontrarmos esse tipo de agressor no sexo feminino, e estou convencidíssimo que isso só acontece porque não têem coragem de recorrer à violência física. Não ficaria demasiado surpreso se um estudo viesse a revelar relações do tipo: Agoramaltrato eu até que você não aguente mais e me bata,pra depois voltarmos ao início.
    tudo o resto já foi dito por Vivi

  • tatáh disse:

    Tanto perdoar como compreender dependendo da mágoa que vc sente sao tarefas impossiveis

  • katy disse:

    certas coisas são incompeensíveis e imperdoáveis. p.s.: amei o livro!!!! parabéns!!!! bjs

  • NR disse:

    acho q por ex… caso de traição ai é problema da mulher se perdoa ou ñ, ela q sabe da sua vida. Agora agressão, roubo ou qualquer coisa q traz maiores danos à pessoa ñ devem nunca ser perdoados.

  • Vanessa disse:

    Perdoar, compreender, isso depende muito da situação…

    Eu nunca pensei que poderia acreditar que uma pessoa que ama não agride a outra, mas gente às vezes a pessoa faz por onde, não estou aqui defendendo homens q batem nas mulheres não pq isso seria hipocrisia da minha parte que passei por isso com um ex namorado, eu acahava até algum tempo atrás que ele nunca me amou pelo fato de ter me agredido 2 vezes, a 1ª eu conversei ele chorou e prometeu nunca mais fazer, depois de algum tempo aconteceu de novo e isso e outros fatores nos levou ao fim do relacionamento, tinha 3 anos que me afastei totalmente dele, temos uma amiga em comum que conversa sempre com ele certo dia ela me disse que ele lamentava tudo que aconteceu, que apesar de tudo se sentia culpado por ter me agredido e que me amava muito na época, mas que muitas das vezes que provocava.

    É isso que tô tentando explicar, que tudo tem limite, e ele tem razão qdo fala isso, eu provoquei pq de certa forma queria ser a vítima sempre, e muitas mulheres tbm fazem a mesma coisa que eu fazia, e nunca se deve medir força física com um homem, desafiar, pq a gente sempre vai sair perdendo…

    Eu depois de saber o que ele sentia a respeito perdoei, mas nunca esquecerei, depois de saber disso até conversamos no telefone, ele quis me ver, mas eu achei melhor não remexer o passado pois com o término do namoro eu sofri muito e foi uma despedida muito dolorosa pra mim…

  • claudia disse:

    otimo!

  • Dani Amorim disse:

    AM, vc pode escrever do jeito q quiser, estilo e humor q preferir. Sempre arrasa:P

  • Christiana Menezes disse:

    Execelente texto. Fechou com chave de ouro. Não acho que todo mundo tenha passado (ou vá passar inevitavelmente) por um episódio de baixaria que acaba em agressão física, mas quem passa tem que denunciar. É humilhante ter que dividir algo assim com aquelas bestas que fazem boletim de ocorrência, mas tem que fazer.
    Depois se você decidir perdoar e/ou compreender, sem dúvida, é uma opção. Uma opção bastante corajosa, por sinal, pois seus amigos vão te cobrar isso pro resto da vida. Mas fazer o que, né? Eles tb devem ser compreendidos e perdoados por não compreender.

  • Kátia disse:

    amei o site e me declaro uma buurrraaaaaa de plantão!!!!! rsrss

    vivo me iludindo, achando que ele “ainda” é apaixonado por mimmmm e que tb. sente a minha falta!! rs

    pobre coitada!! kkkkk

    beijooossssss

  • diana disse:

    ola meninas,vou fala um pouco sobre o ja passei,sou uma menina nova,tenho só 20 anos,mas fico com um garoto ja vas 3 anos,mas tipo asimtermina volta,nunca consegui termina com ele,ja tentei,mas sei tb que n fiz o bastante.hoje tou gravida dele,e n tamos mas juntos,na verdade quando engravidei agente n tava,foi somente n carnaval q agente ficou a sim a conteceu essa gravidez,depois q ele ficou sabendo q eu tava gravida voltamos(dia 12 dias dosnamorados)mas logo nas ferias de julho ele continuor mim traindo,terminei dnovo.hoje toumuito magoada com ele,e n queria mas volta com ele,mas sei q vaiser muito divicil,por minha causa,e pq tou gravida dele né.meninas gostaria muito de receber algumas dicas d vçs.mimajuda sai dessa.bjosssss

  • francyne disse:

    Sei que meu relacionamento não tem mais condição de continuar, mas pq não consigo colocar um ponto final? Será que não há um remedio para burrice?

  • francyne disse:

    Pq se iludimos tanto? Me add nomsn francyneeisenhut@hotmail

  • Amanda disse:

    Um dos posts mais lindos que eu já vi aqui!! Amei, maravilhoso!

  • janaina disse:

    è dificil viu saber se perdoa ou se esquuece uma situação dessa è ruim ate de pensar

  • Mariana disse:

    preciso evoluir mto ainda pra conseguir perdoar/compreender os babacas que pisam na bola comigo…

  • miguens disse:

    Ou talvez seja de considerar o velho aforismo árabe que diz:
    “Batam nas vossas mulheres todas as noites, mesmo que não saibam porquê. Elas o saberão.”

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