Prefiro que haja mais interesse pelo meu corpo do que por minhas ideias, diz Millet

Por Burraldas

Crítica de arte francesa narrou suas aventuras sexuais em livro.
Catherine Millet estará na Flip, evento literário em Paraty (RJ).

Antes da enxurrada de confissões sobre experiências sexuais por autoras como Lolita Pille e Melissa Panarello, ou antes mesmo do diário de Bruna Surfistinha, uma quarentona intelectual francesa chamada Catherine Millet já fazia metade de seu país soltar um “ulalá” ao revelar sua atividade favorita quando não estava à frente de uma conceituada revista de arte: sexo desenfreado, com múltiplos parceiros e de várias maneiras.

A fundadora da respeitada “Art Press” e crítica de arte, que participa da sexta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta semana, relatou orgias com 150 pessoas, transas com desconhecidos no Bois de Boulogne, o maior parque de Paris, um ménage à trois envolvendo dois cozinheiros africanos, entre outras revelações bem detalhadas ao longo das 220 páginas de “A vida sexual de Catherine M.” (2001) – lançado no país pela Ediouro.

Programada para o próximo domingo (5), a mesa literária conduzida pela psicanalista Maria Rita Kehl também servirá para Millet, de 51 anos, falar de seu trabalho mais recente, “A outra vida de Catherine M.” (“Jour de souffrance” no original, que está saindo aqui pela editora Agir). O livro traz novas revelações, mas de uma outra espécie: a mulher entusiasta da libertinagem deixa agora à mostra o ciúme doentio quando descobre as eventuais puladas de cerca do marido, o escritor Jacques Henric.

“Não posso explicar a contradição. Eu a vivo. Os seres humanos não são monólitos. Eles são cheios de contradições e uma delas que é uma das mais disseminadas é que, à vezes, os sentimentos entram em conflito violento com a filosofia e a regra da vida”, diz Millet ao G1, em entrevista por e-mail.

Para a escritora, o impulso sexual forte sempre existiu em sua vida. “Mas me parece que foi como a maior parte das crianças: muito curiosa por qualquer coisa sobre a qual não se sabe o nome: o sexo. Eu tinha jogos eróticos com o meu irmão e, depois, com os meus colegas de colégio, e então descobri a masturbação. Como a minha família não era muito repressora, essa libido se desenvolveu naturalmente”.

Sem dramas pessoais nem um espírito de rebeldia para os que querem uma justificativa para a sua vida sexual intensa, Millet prefere apontar para uma atmosfera propícia para que isso acontecesse. “Eu não elaborei uma filosofia transgressora porque eu vivi minha juventude numa época e num ambiente muito livres. Eu viva minha liberdade sexual como um peixe dentro d’água. E adorava que todos fossem como eu.”

Em “A vida sexual de Catherine M.” ela conta que participou de sua primeira orgia apenas semanas depois de perder a virgindade, aos 18 anos. E o sexo grupal aparece constantemente na narrativa, uma preferência que a autora explica por um viés, digamos, “antropológico”: “É como partir para uma aventura, ser um explorador que descobre uma nova tribo”.

“Quando o livro foi lançado, muitos jornais os compararam a um reality show. Minha opinião, talvez paradoxal, é a de que nos aproximamos muito mais da ‘realidade’ em um livro do que em um programa de televisão.”

“Desde muito tempo eu gostaria de dizer a verdade sobre a experiência sexual de uma mulher. Eu me pus a trabalhar quando um amigo editor, para o qual eu apresentava meus projetos, disse que se interessava em publicá-lo. Mas eu não tinha ideia no que estava embarcando! Eu não avaliei absolutamente nada, nem o trabalho que isso representaria, nem o eco que ele encontraria no público. E eu nunca me perguntei o que as pessoas ao redor de mim, amigos ou desconhecidos, poderiam pensar de mim. Retrospectivamente, eu acredito que escrevi este livro com uma certa franqueza.”

O resultado no mercado editorial foi bastante significativo. O livro vendeu 2 milhões de exemplares no mundo inteiro, um número que expressou também um interesse cada vez maior do público nos anos 2000 por aspectos da vida particular – principalmente os sexuais – dos outros. E, apesar de obviamente não ter inventado o gênero, “A vida sexual” foi seguido dentro de uma tendência confessional pelas já citadas Lolita Pille (“Hell”) e Melissa Panarello (“Cem escovadas antes de ir para a cama”) e pela mais recente Charlotte Roche (“Zonas úmidas”).

“Quando o livro foi lançado, muitos jornais os compararam a um reality show. Minha opinião, talvez paradoxal, é a de que nos aproximamos muito mais da ‘realidade’ em um livro do que em um programa de televisão.”

“Na Europa, ‘A vida sexual…’ foi muito copiado, talvez porque o público estivesse à procura desse gênero de livro. Mas, em geral, será que as pessoas ‘revelam’ suas vidas sexuais aos outros? Eles conversam mais sobre isso, mas acredito que continuam a mentir muito sobre o assunto…”, diz Millet, reclamando autenticidade para o seu relato.

Tão identificada com a intelligentsia francesa, essa especialista em Salvador Dalí (e que acha que o mundo das artes plásticas do anos 1970 é mais interessante do que o de hoje) diz não se incomodar com o fato de que as pessoas estejam hoje mais interessadas por suas aventuras sexuais do que por sua opinião sobre arte contemporânea.

“Para mim foi perfeito. Eu prefiro que as pessoas se preocupem e se ocupem mais de meu corpo do que aquilo que eu tenho na cabeça.” Mas oito anos depois ela segue falando abertamente sobre sua vida sexual? “Se me perguntam, eu respondo, mas não há grande coisa de novo!”, sem especificar se ela permanece no mesmo ritmo do passado ou se suas aventuras sexuais, de fato, desaceleraram.

Fonte: G1



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6 julho 2009 303 acessos 2 comentários

2 comentários »

  • Alice disse:

    Cara, desnecessário. Eu nem gosto de gente que fica falando sobre sua vida sexual, pra mim isso é muito pessoal. Mas acho legal as pessoas conversarem sobre sexo.

  • Gimenta disse:

    Creio que a intelectual francesa quarentona seja uma exceção.
    Sexo é uma coisa sobre a qual as pessoas mais falam do que fazem. Parece que todo mundo quer ser o vencedor da maratona no quesito sexo, ou pelo menos passar essa imagem.
    Gente, convenhamos, a simples realidade imposta pela natureza dificulta a “performance atlética” após os 40 anos. É que depois de um certo tempo os hormônios se acalmam, os músculos (todos eles, sem exceção!) ficam flácidos, o fôlego diminui, não dá para ser o(a) super-fodão a vida inteira. Portanto, queridas burraldas quarentonas, não desanimem se não se enquadrarem no modelo maratonista descrito no best seller da Sra. Catherine.
    Ah! e não esqueçam que ela precisava vender seu livro. Alguém conhece coisa mais fácil de vender do que sexo??

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