Síndrome de Eva
No imaginário judaico-machista-cristão, a mulher assume duas facetas (eu disse FAcetas) muito diferentes, contraditórias até: ora somos o sexo frágil, submisso, inferior, ligeiramente incompetente, ora somos a sedutora, vil, manipuladora.
Então quando não somos meras “peças de apoio”, somos “discípulas de Eva” – aquela que enganou Adão, coitadinho, dizendo que aquela “frutinha diferente” era uma grape fruit. “Fruta importada! Coisa chique!”, dizia ela, só pra convencê-lo a cometer o pecado original.
A fragilidade da mulher já foi colocada a prova “n” vezes (basta ver “Kill Bill”), então nem vou discutir. Mas esse talento para a manipulação, ainda hoje é meio que festejado pelas próprias mulheres. E isso sempre me incomodou.
Na minha família, por exemplo, papai sempre foi o mais temido, mas quem decidia mesmo as coisas era minha mãe (a função do meu pai era usar aquela voz de trovão pra encerrar qualquer picuinha ou discussão). Depois que ganhei certa idade, minha mãe me disse algo que no fundo eu já sabia:“– Filhinha, quem manda nessa casa é o seu pai, mas ele não manda nada que eu não queira.”
Assim como minha mãe, é muito comum a mulher se fazer de “comandada”, única e exclusivamente para manter uma “ordem das coisas” que torna a sociedade atual mais confortável para os homens.
Eu sempre achei isso o fim, masssss… uma vez que você se aventure nesta selva chamada “casamento” (e que inclui toda a sorte de uniões-teoricamente-estáveis, ok? Não vamos nos prender a rótulos), tem que estar ciente de que provavelmente trairá o movimento feminista encarnando a “Eva supracitada”.
Quando decidi “me misturar” com um homem, foi com alguém bem diferente do meu pai. Um cara moderno, bem educado, com a mente aberta, que não se liga em futebol, não bebe, etc. Alguém que nem parecia ser descendente da mesma espécie em extinção que é o meu pai! Enfim… era OUTRA PARADA, entende? Achei que com um homem tipo “modelo de última geração” eu poderia ser uma mulher de última geração, preferindo discutir, argumentar de igual pra igual, sem precisar lançar mão do suposto talento pra manipulação.Nossa primeira crise foi muito mais financeira do que conjugal (se bem que minha teoria é que toda crise financeira acaba em algum momento virando crise conjugal. Eu até tentei usar a falta de dinheiro de uma forma benéfica, tipo, pensar naquela conta de luz que graças a Deus veio mais baixa esse mês, pra potencializar o orgasmo, mas não deu muito certo), e é nessas horas que alguns segredos sombrios se revelam.
Como eu estava mais por dentro da parte financeira da casa, tomei a frente da situação, buscando as soluções cabíveis pra sairmos do vermelho. Encurtando a história: depois de uma das milhares de brigas que tivemos sobre tais decisões (às quais ele se opunha sistematicamente), ele me solta a pérola: “Quer, por favor, me deixar ser o homem da casa de vez em quando?” (bom, se o cara tem que pedir é porque… enfim…).
A partir daí fui me lembrando das sábias palavras de minha mãe. E também de suas estratégias. A verdade é que ninguém agüenta argumentar exaustivamente sobre tudo. Chega uma hora que a gente cansa e se a gente não cuidar o relacionamento cansa também. Então pra certos assuntos corriqueiros, eu já me peguei plantando umas mensagens subliminares na cabeça do “macho alfa” aqui de casa, tal qual a sábia mamy.
Continuo achando isso ridículo, mas se é disso que ele precisa pra ser mais sensato (e por “mais sensato” quero dizer “me dar razão”), então que seja. E sim, eu me sinto uma verdadeira traidora da causa feminista, mas fazer o quê? No amor e na guerra dos sexos, vale tudo. Principalmente quando a gente ama o inimigo.
O que restou de minha dignidade, eu guardo junto ao fato de nunca ter usado sexo como moeda de troca ou tática de convencimento. Bom… pelo menos por enquanto…
Antânia
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Adorei!
Nem precisei ler o texto, mas mulher é burra mesmo
fazer o que né? agente tem que ter jogo de cintura… não dá pra mudar anos e anos de sociedade. Pelo menos agente pode ter estratégia!
Nem me sinto incomodado. Quem manipula quem é algo muuuuito relativo. E no amor e na guerra…
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