O primeiro "cafa" a gente nunca esquece…

Por Antânia

Lembro-me de quando fui iniciada nesta sina. Ricardo, ele se chamava. Éramos bons amigos até que, numa tarde ensolarada do ano de… Bem, numa tarde ensolarada dos meus 12 anos, uma amiga me trouxe a notícia bombástica de que ele havia pedido pra me “colocar na fita” dele – traduzindo do português arcaico, “colocar na fita” seria o equivalente a dizer que fulana estava sendo “visada” por ciclano (me senti tão velha agora que meu reumatismo até piorou).

Fiquei perplexa, não só pelo fato de sermos amigos, mas principalmente porque ele era gato pra caramba. Era mais velho (catorze anos!), tinha um charme meio rebelde e um pseudo-bigode bem ao estilo Latino (comum aos meninos da idade). Praticamente um Gianechini-teen para a época.

Como além de burra eu era (?) troncha, de cara eu disse que não estava interessada, por pura sem-gracisse mesmo. Ele insistiu e não demorou muito pra eu voltar atrás (até porque “voltar” só pode ser “atrás”, né mermo?). Começamos a namorar escondido, porque meu pai dava aulas na mesma escola e não poderia saber (antigamente tinha essas coisas… Ai o reumatismo…).

Ricardo não fazia o tipo romântico-educado. Não me dava presentinhos nem se oferecia pra comprar meu lanche, mas vivia me elogiando (e todo cafa sabe elogiar). Fiquei totalmente apaixonada (leia-se cega e surda).Com Ricardo aprendi que matar aula de vez em quando pode ser uma boa e que legal mesmo era beijo de língua com os olhos bem fechados.

Tudo bem, tudo ótimo, tudo show, tudo lindo… Certo? Errado. Senta que lá vem o dramalhão mexicano.

Primeiro foi uma ex dele que apareceu na escola, única e exclusivamente para vê-lo (e pelo tamanho do sorriso dele, desconfio que ele gostou da surpresa). Naquele dia Ricardo nem me enxergou. Os dois conversaram longamente e ainda foram embora juntos (ele com a mão perturbadoramente pousada na cintura dela). É lógico que fiquei puta e arrasada, mas no dia seguinte não disse uma palavra (TRONCHA!). Daí em diante a coisa deu uma degringolada… Se ele já vivia cheio de gracinhas com as outras meninas da turma, agora ele estava cada vez mais descarado.

Choviam comentários sobre ele e a ex, ele e uma lourinha do turno da manhã, ele e uma vaquinha da 7ª série, ele e a Dona Neide da limpeza e etc. Ricardinho negava, como era de se esperar. Me lembro dele dizendo: “Não acredito que você, que é tão inteligente, não sacou que isso é tudo mentira dessas invejosas?!”.

[Vamos fazer uma pausa e dar uma analisada: perceba a estratégia "convença ou confunda", de elogiar enquanto mente; perceba como ele usou o lance da inteligência, porque sabia que isso mexia mais com a minha vaidade do que alguma coisa relativa a aparência (até porque eu sempre tive espelho em casa. Eles quebram, mas eu compro outro)! Vamo falá! O garoto tinha ou não tinha potencial??]

(Voltando…) Segundo Ricardo, as maledicências eram fruto da inveja (“maledicências” ficou bonito à beça). O estranho é que as “invejosas” eram amicíssimas dele (pelo menos as bonitinhas).

Um dia, uma amiga me disse que viu meu Ricardinho examinando as amídalas da tal vaquinha da 7ª série. Agora vem o ápice do surto burráldico: eu nem cogitei a possibilidade daquilo ser verdade! Ignorei minha amiga como se fosse um daqueles chatos missionários da Igreja Universal. Foi preciso eu ver a cena com meus próprios olhos, bem no portão do colégio.

Humilhada, arrasada, descabelada, catei os caquinhos do meu coração e fui na mesma hora tirar satisfações, mas eu chorava tanto que ele nem conseguia me entender (e também não estava interessado). Pois bem. Eu lá, desidratando de tanto chorar, e ele, um poço de sensibilidade, faz o quê??

(a) Aponta e ri.
(b) Enfia a mão no meu peito, arranca meu coração e morde-o ainda batendo.
(c) Termina comigo na frente da vaquinha.

Acertou quem marcou a opção “c”. Santa humilhação, Batman (acho que o “aponta e ri” doeria menos).E depois disso eu ainda corri atrás dele um bom tempo. Chegamos a voltar, mas adivinha como acabou? Bingo! Ele terminou comigo de novo (mas pelo menos foi sem platéia dessa vez).

Uns três anos depois, encontrei com ele muito rapidamente. Dois beijinhos no rosto e umas olhadas de cima a baixo, tanto minha quanto dele. Me lembro de ter pensado: “Tenha dignidade, Antânia! Um mínimo de dignidade!”. Mas o fato é que estive com ele apenas cinco minutos; se fossem dez, eu pegava.O mais irônico é que uma vez, enquanto estávamos namorando, uma professora fez o seguinte comentário: “Ricardo, você vai dar trabalho! Aposto que vai conquistar todas as meninas da turma! A única que talvez escape é a Antânia!”. A turma toda (que já sabia do namoro “secreto”) caiu na risada. E eu lá, fazendo uma cara de não-sei-desconheço-nunca-ouvi-falar.

Tadinha… A professora contando comigo pra salvar a humanidade (ou a mulheridade)… E eu lá, subindo na forca pelas minhas próprias pernas.É que, enquanto aluna, eu até que era inteligente. Mas enquanto mulé, eu já era burra.

Antânia.



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27 novembro 2007 284 acessos 5 comentários

5 comentários »

  • Pedro Neiva disse:

    hahahah eu simplesmente adorei a estória e a forma como ela foi contada, adorei o humor e acho que já vi algo relacionado no programa do Jô Soares… eram v6?acho que o amor e paixão nos deixam burros mesmo mas, o detalhe é que as mulheres, sendo muito mais românticas, sofrem mais com isso.
    parabéns pelo Site! um beijão!!

  • jr disse:

    interessante mesmo os cafas vem desde antigamente
    nao tem jeito
    e hj em dia a gnt so aperfeiçoa mais
    e mas

  • Karine disse:

    Poxa fazer o que neh…

    Eles desenvolvem a habilidade desde cedo.

  • Luana Motta Black disse:

    Tudo o q acontece nas nossas vidas não são por acaso, tudo e todos tem seu objetivo, e os acontecimentos da vida bons ou ruins são para o nosso próprio bem, se não atropeçarmos nesta pequena pedrisco de hoje, não aprenderemos pular a pedrinha de amanhã e a pedra … etc.Ninguem chega ao topo se não subir o 1º degrau e como diz um proverbio chinês: Em uma caminhada de dez km, começa-se com o primeiro passo.E com tantas coisa boas que Deus nos ofereçe, p/ q vamos perder tempo com besteira? Isso é q armazenar o cérebro, no momento propício de usa-lo.Em relaçao ao q disse sobre os ‘chatos missionários da igreja universal ” podem ate ser chatos pois ninguem agrada todo mundo, mas venhamos de conver, oportunidade bate a porta de todos , só que nem todos estão preparados para usa-las!!!

  • jullianta disse:

    Que coincidência, meu primeiro cafa tb se chamava Ricardo, eu tinha treze anos ele dezeseis era o gatinho mais cut da escola e eu estava na minha era monstrinho (aquela faze q vc não sabe o q é, menina, moça, et?) Ele cheio das gatinhas mais velhas q eu, e já gostosas esperientes. Infelizmente nem as sobras me restaram, hoje não sei q fim levou mas gostaria muito de saber, por nada não só por saudade do meu primeiro amor, da minha infancia tão legal.

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