Colegas de trabalho

Por Antânia

Colírio e eu éramos apenas colegas de trabalho numa empresa onde o ambiente era super descontraído. Falávamos da vida uns dos outros, saíamos todos juntos e tudo era motivo para gozação.

Em qualquer história que se contasse, por mais singela que fosse, sempre tinha um que encaixava uma segunda interpretação. Um dia, estávamos todos num momento “cafezinho” e uma amiga reparou num hematoma horroroso na minha perna. “O que foi isso?” – ela perguntou. Eu, que tenho a alma pura, respondi sem titubear, na maior inocência: “Ah, deve ter sido na cama de novo…”.

Achei que qualquer pessoa razoável, sabendo que sou extremamente desastrada (tipo, nasci com as duas mãos e os dois pés esquerdos, sendo destra), entenderia que foi um simples acidente doméstico (esqueci que lá não existem pessoas razoáveis e sim uma horda de joselitos). O resultado foi uma série de comentários do tipo “que posição é essa que eu não conheço?”, “me empresta essa sua edição do kama sutra porque deve ser PLUS!!”, etc.

E o Colírio, que estava sentado bem ao meu lado, me olhou nos olhos e disse de forma que só eu escutasse no meio da gargalhada geral: “vou ficar te imaginando”. Aí sim, eu fiquei vermelha.

Nós já trocávamos olhares e elogios, mas tudo muito inocente, até porque, eu estava namorando. O tempo passou, meu namoro acabou e volta e meia Colírio me olhava de um jeito e dizia com voz grave: “continuo te imaginando”. E eu sentia um arrepio numa parte muito específica do corpo.

Numa das saídas depois do trabalho, os olhares de Colírio se intensificaram e, numa excursão até o banheiro, eis que encontro-o num canto escuro do bar. E aí, colega, só me lembro de ter pensado: “não quero nem que Deus me ajude!” – e corri pro abraço.

Ficamos sofrendo uns quinze minutos naquele (bendito!) cantinho escuro e depois voltamos para a mesa com a cara mais deslavada. No dia seguinte, no MSN, Colírio falou meia dúzia de sacanagens e depois mandou aquele caôzinho básico: “melhor ninguém ficar sabendo, senão vamos virar o assunto do mês”. É claro que eu não comentei com ninguém sobre o “pega-pra-capar”.

Pouco tempo depois, Colírio foi transferido e praticamente perdemos o contato.

Recentemente o grupo voltou ao lugar fatídico (o boteco do cantinho escuro) e, depois de alguns drinks (e por drinks entenda cerveja/vinho barato), uma amiga me confidencia um momento interessantíssimo que viveu naquele mesmo bar. Disse que foi praticamente atacada (pobrezinha!) numa curva perto do banheiro.

Eu logo matei a charada:

- Não acredito que você pegou Colírio!!!!!!
- Shhhhhh… Como é que você sabe????
- Reconheci as marcas do ataque!!!
- VOCÊ TAMBÉEEEM?????

E pelas nossas contas, foi na mesma noite. Ficamos ali imaginando se mais alguém havia sido vítima do tarado do banheiro e chegamos a cogitar a possibilidade de uma “enquete”.

Não descobrimos nenhum outro caso, mas parece que (surprise! surprise!), há muito que Colírio já tinha sua “menina dos olhos”.

Particularmente estou preferindo “óculos escuros”.

Antânia



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16 maio 2006 133 acessos comente!

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